Televigilância e os Porcos

Acabei de ouvir um debate sobre a utilização de câmaras vídeo de vigilância nas cidades portuguesas no programa “Quadratura do Circulo” da SIC Notícias (eu lincava a página do programa, mas parece que a SIC desistiu dessas modernices, se souberem onde anda a dita página, avisem-me por favor!).

Não interessam muito as posições de cada um dos comentadores. Perderam-se em considerações sobre a legalidade e a salvaguarda dos direitos e garantias fundamentais dos cidadãos. Todos foram eloquentes, todos falaram muito bem.

O problema é terem todos esquecido a pergunta mais importante:
 

Estes sistemas funcionam realmente?

 

 

Esta pergunta ninguém fez. Os sistemas foram apresentados como coisas eficientes, suscitando inclusive o temor de induzirem a redução do número de polícias e de se redireccionarem as verbas agora destinadas às polícias para estes sistemas de vigilância.

Nos países onde estes sistemas estão instalados há muitos anos, por fantástico que pareça, não há dados indisputados que apontem para a efectividade dos mesmos. Pelo contrário, é fácil encontrar múltiplos estudos que concluem exactamente o contrário. Podem consultar dezenas de estudos sobre este tema aqui.

No estudo mais citado sobre este tema [PDF], conduzido pelo Home Office Britânico, pode-se ler no sumário executivo:

Out of the 13 systems evaluated six showed a relatively substantial reduction in crime in the target area compared with the control area, but only two showed a statistically significant reduction relative to the control, and in one of these cases the change could be explained by the presence of confounding variables. Crime increased in seven areas but this could not be attributed to CCTV. The findings in these seven areas were inconclusive as a range of variables could account for the changes in crime levels, including fluctuations in crime rates caused by seasonal, divisional and national trends and additional initiatives. Dos 13 sistemas avaliados seis mostraram uma redução relativamente substancial no crime na área alvo por comparação com a área de controlo, mas apenas dois mostraram uma redução estatisticamente significativa em relação à área de controlo e num desses casos a mudança poderia ser explicada por outras variáveis. O crime aumentou em sete áreas mas isto não pode ser atribuído à presença de câmaras de circuito fechado de tv. Os resultados destas sete áreas foram inconclusivos dado que havia uma colecção de variáveis que poderia ser responsabilizada pelas mudanças nos níveis de criminalidade, incluindo flutuações nas taxas de criminalidade causadas por tendências sazonais, regionais e nacionais bem como devido a iniciativas adicionais.

Não me parece que estas sejam palavras de congratulação pelos êxitos alcançados por estes sistemas. Antes pelo contrário.
 

Porquê então gastar dinheiro nestes sistemas?

 
Se tivermos em conta que está em crescimento uma poderosa industria mundial de vigilância (facto denunciado pelo Wikileaks há pouco tempo), industria essa que necessita de ser alimentada de alguma maneira. E também a existência de muitos boys que necessitam sempre de mais um job. Então as coisas começam a ficar mais claras. Para que não haja dúvidas, não estou a insinuar, tenho mesmo a certeza que haverá um bando de porcos políticos portugueses a chafurdar nesta mixórdia assim que tenham a mínima das chances.

E claro, as preocupações do Pacheco Pereira, participante do programa de TV que referi, acerca do assalto às liberdades individuais e sobre o mau uso que se pode dar a estes sistemas, são perfeitamente válidas e pertinentes.

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13 thoughts on “Televigilância e os Porcos

  1. Não é preciso ser estudioso sobre a matéria para saber que não é por as lojas, hipermercados, ourives, etc etc terem câmaras de vigilância que passaram a deixar de ser assaltados.

    E também me parece que nenhum de nós é ingénuo ao ponto de acreditar que o governo quer controlar a video vigilância nas cidades para baixar a criminalidade.

    • Claro.

      Já li algures, a diminuição de policiamento que ocorre sempre que estes sistemas são instalados numa dada zona, aliada ao facto dos criminosos rapidamente saberem onde estão instaladas as câmaras faz com que possam actuar ainda mais impunemente que o normal. Ou seja, o crime diminui nas primeiras semanas, os políticos fazem anúncios com toda a pompa e circunstância e depois volta tudo ao mesmo.

      Como não acredito que os nossos políticos queiram atentar às liberdades de cada um (fazem-no se lhes for conveniente), os motivos para a instalação destes sistemas resumem-se a dois: a estupidez de proporções bíblicas desta gentinha e o lucro puro e simples.

      Apesar de pensar que o motivo não inclui o espiar as pessoas, depois dos sistemas estarem montados a tentação para os utilizar nesse sentido será demasiado grande… E por isso também serão usados nesta vertente.

      Edição: typos

  2. Veja-se o caso da ribeira do Porto e logo tirem as vossas conclusões.
    O cidadão é muito averso à vigilância, mas quando alguém é roubado, estripado, violado, logo caem aos pés a dizer que há falta de vigilância. Ter 2 câmaras em cada rua é mais seguro que ter 1 policia. O policia sozinho nada vai fazer e é impensável ter carrinhas da policia de intervenção a cada 200 metros. Qual é o drama em haver vigilância? Sempre pensei que só teria medo quem não andasse a fazer coisas correctas, mas…não sei, a mim nada me incomoda. Não fosse aqueles senhores que disseram que nao queriam chip na matrícula, hoje as SCUTs seriam pagas por facturação e não se pagaria 30 cêntimos por cada passagem de taxas administrativas. A esses tais senhores, o meu muito obrigado, contribuírem para o tachismo. São todos neutros, mas quando metem a colher, o resultado acaba por ser pior para o cliente, incrível, não?

    • Hesitei em responder ao seu comentário. O problema que levanto não tem nada a ver com o que está a dizer (apesar de eu pensar que a sua é no mínimo uma atitude imponderada).

      No post interrogo-me exactamente sobre a eficiência da televigilância. Mostro que existem estudos, de entidades insuspeitas, que mostram a inutilidade destes sistemas.

      Terá, por ventura, estatísticas sobre a ribeira do Porto e da própria cidade que queira partilhar connosco?

  3. Estudos?! Há estudos para todos os gostos. Há muitos anos que se usam estes sistemas e cada vez se usam mais. Alguma coisa isso significa.
    O texto pega no lado pior do assunto: o lado da “conspiração”, muito em voga. Interessaria mais o lado cidadão/legislação onde se poderiam discutir as aplicabilidades, restrições e limitações de tais sistemas. E já agora de exemplos de adequação apropriada e indevida.
    Assim, penso que este tipo de generalização do assunto não passa de ruído.

    • Estudos?! Há estudos para todos os gostos. Há muitos anos que se usam estes sistemas e cada vez se usam mais. Alguma coisa isso significa.

      Não, não significa rigorosamente nada. É apenas um erro lógico.

      Além do mais não há conspiração, as pessoas agem de acordo com incentivos, limitei-me a apontar um incentivo real e documentado, ao qual os políticos são muito afeiçoados, a saber: o dinheiro.

    • Apaguei-lhe o comentário com a gralha.

      Quanto ao que escreveu, desde quando é que não se citam as fontes? Para quem é tão ligeiro a acusar os outros de engendrarem teorias da conspiração…

  4. Bem, bem há políicos e políticos. Se é que se refere aos que se envolvem directamente na vida política, é claro.
    Não me parece haver ligeireza na classificação dentro das “teorias da conspiração”. A ligação é demasiado rebuscada para ser evidente.
    Trabalhei numa companhia em que o parque de estacionamento (viaturas oficiais e particulares) estava sempre a ser assaltado com prejuízo evidente para os trabalhadores. Chegaram até a desaparecer várias motas e três ou quatro carros em dois anos. A administração – a “pedido de várias famílias” resolveu instalar um sistemas de CCTV. A partir dessa altura foi apenas reportado um assalto em três anos… Depois disso não sei porque fui trabalhar para outra companhia.

    • A ligação é demasiado rebuscada para ser evidente.

      Opiniões. Eu vejo tanta evidência do contrário: Jorge Coelho, Ferreira do Amaral, Mira Amaral, Isaltino, Paulo campos, etc, etc, etc…

      O exemplo que dá é apenas isso, um exemplo. Para podermos concluir alguma coisa necessitamos de amostras suficientemente grandes, é necessário controlar as variáveis, enfim, é necessário fazer um estudo! (A sério é mesmo necessário.)

  5. Falavamos de CCTV. Não estou a ver como é que esses nomes que aponta vêm ao caso. Sejamos objectivos.
    O exemplo que aponto pretende ser a explanação de que prefiro, caso a caso, atender mais à minha experiência, raciocínio e intuição do que aos estudos, pois, conforme disse atrás, há-os para todos os gostos.
    Quanto ao resto, vigilância sim, mas devagar.
    Como sabe, de cada vez que mede o seu cartãozinho na ranhaura de um Multibanco, se for caso disso, está efectivamente a ser vigiado. A conversa sobre vigilãncia e o seu papel nas sociedades poder-nos-ia levar muito longe. Porém, não é nem no carril nem no comboio que disponibiliza com o seu texto que poderíamos chegar lá… pois, na minha opinião (vale o que vale…) e, sem ofensa, é demasiado ideológico e estereotipado.

    • O exemplo que aponto pretende ser a explanação de que prefiro, caso a caso, atender mais à minha experiência, raciocínio e intuição do que aos estudos, pois, conforme disse atrás, há-os para todos os gostos.

      Eu gosto muito do raciocínio e opinião, mas ainda mais quando estes têm uma contrapartida em grupos de controlo, testes duplamente cegos, etc. Tratam-se de estudos científicos. Ao pôr de lado a informação dos estudos, como se fossem uma doença ruim, vai cair no senso comum e se há coisas a que este pode responder, este problema não é certamente um deles. Areias movediças, portanto.

      Note que não os há para todos os gostos, são bastante consistentes nos resultados.

      A conversa sobre vigilãncia e o seu papel nas sociedades poder-nos-ia levar muito longe. Porém, não é nem no carril nem no comboio que disponibiliza com o seu texto que poderíamos chegar lá… pois, na minha opinião (vale o que vale…) e, sem ofensa, é demasiado ideológico e estereotipado.

      Por favor re-leia o artigo. Eu esquivei-me propositadamente a abordar esses assuntos, simplesmente porque nem há necessidade de os discutir se os sistemas de CCTV não cumprirem os objectivos a que se propõem. Digamos que é a fase anterior à discussão que propõe.

      Quanto à visão que tenho dos políticos, admito que seja estereotipada, mas os governos sucessivos, assim como os políticos, trabalharam e bem para me enfiar na cabeça estas ideias. Talvez esteja enganado, são tudo pessoas de bem, muito competentes, bem preparados, conduziram o país ao sucesso, eu é que não reparei nisso…

      Já agora, que ideologia defendo eu?

      • Ultrapassemos o seu discurso ziguezagueante em busca de ter razão. Com certeza que a terá em vários aspectos. Generalizar é que é, como sempre, desastroso.
        Apresentei as minhas discordâncias, a minha experIência e a minha opinião. Acho que já basta para um “bom participante”. Com certeza que alguma coisa se pode retirar da minha “oposição” esforçadamente construtiva…
        Sobre a ideologia: precisaria de mais dados para uma classificação precisa, como é evidente. E nem sequer é líquido de que isso serviria para alguma coisa. Acabaríamos a discutir o léxico e a semântica, sem sombra de dúvida!

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