Guantánamo está-me a matar

Prisioneiros em fatos de macaco laranja aguardam numa área temporária sob o olhar atento da polícia militar no campo “Raios-X” na Base Naval de Guantánamo, em Cuba, durante o processamento para o centro de detenção temporária em 11 de janeiro de 2002. Aos detidos vai ser dado um exame físico básico por um médico, que inclui uma radiografia do tórax e recolha de amostras de sangue para avaliar a sua saúde. Foto do DoD (departamento de defesa) pelo sub-oficial de primeira classe Shane T. McCoy, da Marinha dos EUA.

Os EUA mantém prisioneiros em Guantánamo, à margem de todas as leis, sem acusação e sem julgamento homens sem qualquer esperança (muitos deles capturados ainda menores). As notícias nos media normais sobre este caso em Portugal são mínimas (ao contrário do que aconteceu quando os criminosos combinavam a guerra de agressão).

A seguir ao corte pode ler o testemunho de Samir Naji al Hasan Moqbel, preso há 11 anos em condições desumanas (traduzido do New York Times).

Gitmo Is Killing Me

Guantánamo está-me a matar

By SAMIR NAJI al HASAN MOQBEL
Published: April 14, 2013
Por SAMIR NAJI al HASAN MOQBEL
Publicado em 14 de Abril de 2013
ONE man here weighs just 77 pounds. Another, 98. Last thing I knew, I weighed 132, but that was a month ago. UM homem pesa apenas 35 quilos. Um outro 44. Eu, a última vez que me pesaram, tinha 60, mas isso foi há um mês.
I’ve been on a hunger strike since Feb. 10 and have lost well over 30 pounds. I will not eat until they restore my dignity. Tenho estado em greve de fome desde 10 de Fevereiro e já perdi mais de 15 quilos. Não comerei até que me devolvam a dignidade.
I’ve been detained at Guantánamo for 11 years and three months. I have never been charged with any crime. I have never received a trial. Fui detido em Guantánamo há 11 anos e três meses. Nunca fui acusado de qualquer crime. Nunca recebi um julgamento.
I could have been home years ago — no one seriously thinks I am a threat — but still I am here. Years ago the military said I was a “guard” for Osama bin Laden, but this was nonsense, like something out of the American movies I used to watch. They don’t even seem to believe it anymore. But they don’t seem to care how long I sit here, either. Poderia estar em casa há anos – ninguém seriamente pensa que eu sou uma ameaça – mas ainda estou aqui. Anos atrás, os militares disseram que eu era um “guarda” de Osama bin Laden, mas isso era um absurdo, como uma cena tirada dos filmes americanos que costumava assistir. Eles nem sequer parecem acreditar mais. Mas também não parecem importar-se quanto tempo eu fico aqui.
When I was at home in Yemen, in 2000, a childhood friend told me that in Afghanistan I could do better than the $50 a month I earned in a factory, and support my family. I’d never really traveled, and knew nothing about Afghanistan, but I gave it a try. Quando eu estava em casa, no Iémen, em 2000, um amigo de infância disse-me que no Afeganistão eu poderia fazer melhor que os 50 dólares por mês que ganhava numa fábrica e sustentar a minha família. Eu nunca tinha viajado e não sabia nada sobre o Afeganistão, mas decidi tentar a minha sorte.
I was wrong to trust him. There was no work. I wanted to leave, but had no money to fly home. After the American invasion in 2001, I fled to Pakistan like everyone else. The Pakistanis arrested me when I asked to see someone from the Yemeni Embassy. I was then sent to Kandahar, and put on the first plane to Gitmo. Errei em confiar nele. Não havia trabalho. Eu queria sair, mas não tinha dinheiro para voar para casa. Após a invasão americana, em 2001, eu fugi para o Paquistão, como toda a gente. Os paquistaneses prenderam-me quando eu pedi para ver alguém da embaixada iemenita. Fui então enviado para Kandahar e colocado no primeiro avião para Guantánamo.
Last month, on March 15, I was sick in the prison hospital and refused to be fed. A team from the E.R.F. (Extreme Reaction Force), a squad of eight military police officers in riot gear, burst in. They tied my hands and feet to the bed. They forcibly inserted an IV into my hand. I spent 26 hours in this state, tied to the bed. During this time I was not permitted to go to the toilet. They inserted a catheter, which was painful, degrading and unnecessary. I was not even permitted to pray. No mês passado, no dia 15 de Março, estava doente no hospital da prisão e recusei-me a ser alimentado. Uma equipa da ERF (Força de Reacção Extrema), um esquadrão de oito policias militares da tropa de choque, explodiu dentro do quarto. Amarraram-me as mãos e pés à cama. À força inseriram uma agulha na mão. Passei 26 horas neste estado, amarrado à cama. Durante esse tempo, não tive permissão para ir à casa de banho. Inseriram um cateter, o que foi doloroso, degradante e desnecessário. Nem estava autorizado a rezar.
I will never forget the first time they passed the feeding tube up my nose. I can’t describe how painful it is to be force-fed this way. As it was thrust in, it made me feel like throwing up. I wanted to vomit, but I couldn’t. There was agony in my chest, throat and stomach. I had never experienced such pain before. I would not wish this cruel punishment upon anyone. Nunca vou esquecer a primeira vez que passaram o tubo de alimentação pelo meu nariz. Não posso descrever o quão doloroso é ser alimentado à força desta maneira. Quando o tubo foi empurrado para dentro, deu-me vontade de vomitar. Queria vomitar, mas não podia. Havia agonia no meu peito, garganta e estômago. Nunca tinha experimentado esta dor antes. Não desejo este castigo cruel a ninguém.
I am still being force-fed. Two times a day they tie me to a chair in my cell. My arms, legs and head are strapped down. I never know when they will come. Sometimes they come during the night, as late as 11 p.m., when I’m sleeping. Ainda estou a ser alimentado à força. Duas vezes por dia eles amarram-me a uma cadeira na minha cela. Os meus braços, pernas e cabeça são amarrados. Nunca sei quando eles virão. Às vezes, vêm durante a noite, mesmo às 11 da noite, quando estou dormindo.
There are so many of us on hunger strike now that there aren’t enough qualified medical staff members to carry out the force-feedings; nothing is happening at regular intervals. They are feeding people around the clock just to keep up. Agora há tantos de nós em greve de fome, que não há pessoal médico qualificado em número suficiente para nos alimentarem à força, nada está a acontecer em intervalos regulares. Estão a alimentar as pessoas 24 horas por dia, apenas para darem conta do trabalho.
During one force-feeding the nurse pushed the tube about 18 inches into my stomach, hurting me more than usual, because she was doing things so hastily. I called the interpreter to ask the doctor if the procedure was being done correctly or not. Durante uma refeição forçada a enfermeira empurrou o tubo de cerca de 45 centímetros dentro da minha barriga, mais do que o habitual, porque estava fazendo as coisas tão apressadamente. Chamei o intérprete para perguntar ao médico se o procedimento estava sendo feito corretamente ou não.
It was so painful that I begged them to stop feeding me. The nurse refused to stop feeding me. As they were finishing, some of the “food” spilled on my clothes. I asked them to change my clothes, but the guard refused to allow me to hold on to this last shred of my dignity. Era tão doloroso que lhe implorei para pararem de me alimentar. A enfermeira recusou-se a parar de me alimentar. Quando estavam terminando, alguns dos “alimentos” cairam sobre as minhas roupas. Pedi-lhes para trocar de roupa, mas o guarda recusou-se permitir que eu conservasse esse último resquício de dignidade.
When they come to force me into the chair, if I refuse to be tied up, they call the E.R.F. team. So I have a choice. Either I can exercise my right to protest my detention, and be beaten up, or I can submit to painful force-feeding. Quando vêem forçar-me para a cadeira, se eu me recuso a ser amarrado, eles chamam a equipa ERF. Então, tenho uma escolha. Ou posso exercer o meu direito de protestar a minha detenção e ser espancado, ou posso submeter-me à dolorosa alimentação forçada.
The only reason I am still here is that President Obama refuses to send any detainees back to Yemen. This makes no sense. I am a human being, not a passport, and I deserve to be treated like one. A única razão pela qual ainda aqui estou é por o presidente Obama se recusar a enviar os detidos de volta para o Iémen. Isso não faz sentido. Eu sou um ser humano, não um passaporte, e mereço ser tratado como tal.
I do not want to die here, but until President Obama and Yemen’s president do something, that is what I risk every day. Eu não quero morrer aqui, mas até que o presidente Obama e o presidente do Iémen façam alguma coisa, é a isso que me arrisco todos os dias.
Where is my government? I will submit to any “security measures” they want in order to go home, even though they are totally unnecessary. Onde está o meu governo? Para ir para casa eu submeto-me a quaisquer “medidas de segurança” que eles queiram, apesar de serem totalmente desnecessárias.
I will agree to whatever it takes in order to be free. I am now 35. All I want is to see my family again and to start a family of my own. Eu vou concordar com o que for preciso, a fim de ser livre. Estou agora com 35 anos. Tudo que quero é ver de novo a minha família e começar a minha própria família.
The situation is desperate now. All of the detainees here are suffering deeply. At least 40 people here are on a hunger strike. People are fainting with exhaustion every day. I have vomited blood. A situação agora é desesperada. Todos os detidos estão a sofrer profundamente. Pelo menos 40 pessoas estão em greve de fome. As pessoas estão a desmaiar de exaustão todos os dias. Eu já vomitei sangue.
And there is no end in sight to our imprisonment. Denying ourselves food and risking death every day is the choice we have made. E não há fim à vista para a nossa prisão. Negar a nós mesmos alimentos e arriscar a morte todos os dias é a escolha que fazemos.
I just hope that because of the pain we are suffering, the eyes of the world will once again look to Guantánamo before it is too late. Só espero que por causa da dor que estamos sofrendo, os olhos do mundo se virem uma vez mais para Guantánamo, antes que seja tarde demais.
Samir Naji al Hasan Moqbel, a prisoner at Guantánamo Bay since 2002, told this story, through an Arabic interpreter, to his lawyers at the legal charity Reprieve in an unclassified telephone call. Samir Naji al Hasan Moqbel, é prisioneiro em Guantánamo Bay desde 2002, contou esta história, através de um interprete de árabe, aos seus advogados da instituição de caridade Reprieve numa chamada telefónica não classificada.
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11 thoughts on “Guantánamo está-me a matar

  1. Mas muitos destes fulanos não eram potenciais terroristas suicidas? Esta gente não faz gosto em morrer pelo islão? Têm aqui um óptima oportunidade…

    • Comentário asinino, se foram capturados à margem da lei, se não têm acusação formada, se não foram julgados e se, finalmente, não foram condenados, como é que pode saber se são culpados de alguma coisa?

    • Foi uma pena não lhe ter dado uma valente cãibra nos dedos que o impedisse de escrever o que escreveu! Mas lá que tem uma cãibra permanente no cérebro e uma abismal falta de humanidade, lá isso tem! Cruzes, canhoto!

    • E por isso deixam de ser humanos, não é verdade, e nós podemos ser igual a eles porque somos superiores.

    • Sou uma pessoa a quem, por um somatório de razões, a Fé não se ‘instalou’. Respeito por demais as crenças de cada um,, tenho convivido com cidadãos de crenças diferentes e em todas encontro gentes boas, ou menos boas e mentes saudáveis, ou nem porisso, tal como entre aqueles a quem a Fé não tocou. Não posso aceitar, em nenhuma circunstância que seres humanos estejam detidos anos e anos sem julgamento, seja onde for, não é pristigiante para a humanidade. Sejamos, esforçadamente seres justos, até mesmo, quando o faltoso mereça punição. Um mundo melhor para todos. tenhamos Esperança.

  2. Caro Helder, obrigada por ter publicado isto! Nunca é demais levar ao conhecimento das pessoas as atrocidades que os seres (sub)humanos conseguem cometer.

  3. E MUITA INJUSTIÇA PERANTE ESTE ACONTECIMENTO MUITOS FINGEM QUE NAO VEEM MAS UM DIA ELES VIRAM E SA E TARDE PA ELES

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