Os analgésicos sociais

Ettore Scola - Brutti, sporchi e cattivi (1976)

Há um paradoxo nas políticas tanto de esquerda como de direita. Esse paradoxo tem a ver com a defesa, ou não, das chamadas prestações sociais, ou subsídios, como lhes queiram chamar.

O facto é que as prestações sociais mantém uma significativa faixa da população a viver no limiar da sobrevivência, apenas o suficiente para não se revoltarem. Dai eu, e muitos outros, chamar a estas prestações analgésicos sociais.

Estes analgésicos provocam dependência, como qualquer outra droga. Mantém os “beneficiários” num estado tal que se poderão comparar a zombies sociais. Estes zombies são de uma forma geral incapazes de cruzar as barreiras de classe, de evoluir como seres humanos, ficando condenados à sua presente condição.


O paradoxo reside no facto dos partidos de direita serem de uma forma geral contra estas prestações, quando estas são fundamentais para manter a paz social que estes mesmos partidos necessitam para se manter no poder.

Os partidos de direita advogam medidas draconianas de controlo do acesso e uso dos subsídios. Uma política comum de direita consiste em submeter os chamados “beneficiários” às medidas mais humilhantes que consigam conceber (burocracias várias e muitas vezes difíceis de entender, suspeição constante de fraude, sugestões periódicas de trabalho compulsivo – a fazer lembrar as elevadas ideias do Conde de Abranhos).

Isto acontece mesmo considerando que os custos destes programas são diminutos quando comparados com outras despesas. O argumento é a moral: é necessário moralizar o acesso às prestações sociais.

São os partidos de direita aqueles mais têm a perder se houver instabilidade social. Assim o lógico para os partidos de direita será apoiar a distribuição destes subsídios, mantendo os pobres no seu devido lugar, agradecidos (ou embrutecidos) por estas esmolas estatais.

A esquerda, por outro lado, é acérrima defensora de tudo quanto seja subsídio social – mesmo quando são alvo das fraudes mais descaradas. Isto vai contra os princípios nucleares que esta defende, isto é, se os subsídios impedem a mobilidade social, se impedem que as pessoas melhorem como seres humanos e de uma forma geral vivam com melhor qualidade de vida, então não são compatíveis com os objectivos dos partidos de esquerda. Mais, os analgésicos sociais são exactamente a barreira entre o estado actual de coisas e a revolta popular que permitiria mudar o presente regime – objectivo de muitos partidos de esquerda (o estômago é um grande motivador político).

Assim, parece-me, a esquerda e direita têm as posições trocadas no que toca a este assunto. A direita devia defender os RSI e afins que permitem manter a populaça adormecida, sem incomodar. A esquerda deveria lutar por uma aplicação espartana dos subsídios sociais por forma a espevitar as massas para a luta pelos seus direitos, por uma repartição equilibrada dos recursos disponíveis.

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2 thoughts on “Os analgésicos sociais

  1. Acho que está confuso sobre o que é “a esquerda” ou “a direita”. O objectivo é exactamente o inverso, “a esquerda” pretende é definir e controlar as massas, mantendo-as conformadas com o mínimo denominador comum, ao mesmo tempo que reprime as liberdades individuais (qualquer coisa que saia da “norma” do colectivo).
    A “direita” defende o individualismo e a luta pelos direitos individuais (em oposição à formação de colectivos), às vezes vista como cruel, pois não tem problemas em abandonar quem precisa de ajuda (lá está, para espevitar a luta).

    Não existe só “esquerda” e “direita”, há regimes totalitários e opressivos em ambos os lados, isto tem mais a ver com liberalismo e outras questões económicas e políticas. Daí eu ter usado sempre as aspas, pois a classificação de ideias políticas é bem mais complexa do que isso.

    • Não disputo a sua opinião.

      Não creio que faça sentido separar as coisas em esquerda e direita, a realidade é mais complexa que isso e, se queremos soluções para os problemas, temos de aproveitar todas as ideias. Penso que isto é especialmente verdade se considerarmos os partidos políticos que temos neste país, que são mais defensores dos seus próprios interesses mesquinhos do que ideológicos (é claro que há excepções mas são pequenas em termos de votos).

      O ponto que defendo é que a direita tenta reduzir os subsídios e a esquerda tenta sempre aumentar. Quando isso vai contra os respectivos interesses.

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