Síria: a política dos pipelines

As ameaças dos EUA à Síria têm muito pouco a ver com os alegados ataques químicos. E muito a ver com os interesses de cada um dos actores deste drama.

As guerras são sempre selvagens. Esta guerra parece-nos ainda mais selvagem devido à proliferação de vídeos a retratar as mais variadas atrocidades. Atrocidades essas perpetradas tanto pelos rebeldes, como pelas tropas leais ao governo. Nenhum dos lados é merecedor de qualquer tipo de confiança e muito menos de apoio, isto é, se quisermos ter uma consciência tranquila.

A Síria é composta por inúmeras etnias/facções, muitas delas dispostas a lutar entre si se não houver um homem forte que as mantenha em cheque. O afastamento de Assad do poder é garantia quase absoluta que o país vai mergulhar no caos.

Composição étnica da Sìria

Composição étnica da Síria (clique para aumentar, imagem grande!)

Tendo em conta que a mudança de regime está fora de questão, quais são os interesses de cada actor neste drama?

Comecemos pela política dos pipelines.

Segundo o FT, em notícia de Março deste ano, o minúsculo estado do Qatar tinha até à altura financiado os rebeldes em cerca de 3000 milhões de dólares. Apenas nestes últimos meses o Reino da Arábia Saudita estará a investir mais do que o pequeno estado.

O que leva este país a fazer tão tremendo esforço. Alguns dizem que é uma forma de obter reconhecimento e de se afirmar como elemento importante na política da região onde está inserido.

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Notoriedade não é certamente o único motivo. A história é mais ou menos esta, o Qatar tem as terceiras maiores reservas de gás natural no mundo, mas não tem forma de fazer chegar este produto ao mercado mais competitivo: a Europa.

A alternativa ao transporte do gás natural por pipelines, é investir em grandes e dispendiosas infraestruturas, portos de recepção, nos países importadores e em fábricas de liquefacção no pais exportador. O Qatar já é o maior produtor mundial de gás natural liquefeito. Não pode aumentar muito mais essa capacidade porque os mercados de destino deste bem estão a ficar saturados. Resta pois a Europa como destino para esta matéria prima.

A Turquia já tem o pipeline Nabucco pronto a receber gás natural, com ligação directa à Europa. Qual é o maior impedimento à construção da ligação ao Nabucco? – A Síria de Assad. A Síria é o único caminho viável para o pipeline de ligação à Turquia, por motivos étnicos/religiosos/políticos o Qatar não pode usar o Irão para fazer passar o pipeline e o Iraque é um estado falhado, resta pois a Síria, via Arábia Saudita e Jordânia.

Acontece que a Síria está alinhada com os interesses da Rússia, motivo pelo qual não permite a utilização do seu território para a passagem deste pipeline. A Rússia é o maior fornecedor de gás natural à Europa e usa essa posição como vantagem estratégica nas suas relações com a Europa. Um dos objectivos do pipeline Turco é exactamente conceder à Europa independência em relação ao fornecimento de gás natural, dado que este pipeline evita completamente território russo ou territórios sob a esfera de influência da Rússia.

O Reino da Arábia Saudita, com receio de perder influência, tendo em conta os investimentos do Qatar, reforçou também o seu apoio aos rebeldes. Estão tão desejosos de acabar com o conflito que ofereceram aos russos o seguinte compromisso, na condição da Rússia aceitar a intervenção dos EUA:

  • Garantiram aos russos que os pipelines, que o Qatar tanto deseja, não serão construídos;
  • Os russos poderão manter a respectiva base naval na Síria;
  • Dão garantias que os rebeldes tchechenos não realizarão ataques terroristas durantes os jogos olímpicos de Inverno.

Este último ponto é tão notável, tão demonstrativo do funcionamento da política internacional, que vale a pena copiar a citação:

Eu posso dar a garantia de protecção dos Jogos Olímpicos de Inverno no próximo ano. Os grupos Tchechenos que ameaçam a segurança dos jogos são controlados por nós. – Príncipe Bandar bin Sultan

São estes os aliados dos EUA e dos países ocidentais no Médio Oriente.


Para além dos artigos lincados, também consultei os seguintes artigos:


ATENÇÃO: não veja os vídeos seguintes se for impressionável.

No inicio deste post mencionei a existência de inúmeros vídeos que ilustram as atrocidades desta guerra. Pode ter uma pequena ideia do que é uma guerra, neste vídeo, ou neste.

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8 thoughts on “Síria: a política dos pipelines

  1. É como tenho dito estas guerras macabras , selvagens , desumanas
    são feitas por interesses duvidosos , para certos grupos enriquecerem
    e terem poder.
    As vidas humanas não contam , como por exemplo em Portugal , cujas
    vidas dos Bombeiros , praticamente , nem foram lamentadas pelos
    Governantes e outras ditas personalidades , se é são alguém .
    Só se preocuparam elogiar o António Borges um sujeito mau como as
    cobras e arrogante , que se julgava o mais importante do mundo .

  2. Pingback: Síria: a política dos pipelines – Aventar | C O O LTURA

  3. “As ameaças dos EUA à Síria (…) têm a ver com interesses”

    Pessoas sensatas diriam que Obama não ameaça a Síria, mas o seu governo e o seu lider. Vamos então ver quais os interesses dos UEA nesta guerra.

    Resumindo o texto:
    O Qatar financia os rebeldes porque quer passar o seu gás natural através da Síria por gasoduto via Arábia Saudita e Jordânia. A Rússia quer manter a sua posição de maior fornecedor de petróleo da Europa, por isso não quer que isso aconteça. A Arábia Saudita apoiou os rebeldes porque tinha feito investimentos no Qatar. Para defender os seus interesses este país ofereceu à Russia diversas contrapartidas para que esta aceitasse a intervenção dos EUA.

    Conclusão: Ficámos esclarecidos sobre os interesses que movem os EUA. Nada como ter alguém isento para abrir os olhos à gente.

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