Demasiado grandes para falharem, demasiado grandes para mudarem

Permitam-me que emita e controle o dinheiro de uma nação e não me importo com quem faz as suas leis ~ Mayer Anselm Rothschild Banqueiro

Depois da Grande Depressão, a actividade dos bancos foi dividida, isolada. Passou a haver bancos dedicados apenas a actividades de comerciais e, completamente separados destes, existiam os bancos de investimento. Com a desregulação essa diferença esbateu-se e com ela surgiram os conflitos de interesses, no fim a ganância ganhou e os cidadãos pagaram a factura.


 

Os bancos comerciais dedicam-se apenas ao negócio da captação de depósitos e do empréstimo de dinheiro. Estes bancos ainda podem ser divididos em três tipos de bancos, (i) os de retalho, que são os mais visíveis para a população em geral, têm abertos um pouco por todo o país balcões para servir os respectivos clientes, fazem a aceitação e emissão de cheques, transferências, transacções com cartões, etc. Ou seja, são bancos com um alto volume de negócios e uma pequena margem. Depois (ii) temos os bancos comerciais por grosso que se dedicam a negócios de baixo volume e alto valor, tratam por exemplo dos negócios com fundos de pensões, com governos, com os bancos centrais, entre os próprios bancos, etc. Finalmente, dentro dos bancos comerciais, temos (iii) o chamado private banking, que se ocupa essencialmente da gestão de fortunas (pensem em banco suíço).

O outro grande tipo de banco, é o banco de investimento, estes são os bancos facilitadores de negócios. Juntam quem anda à procura de dinheiro, com os possíveis financiadores. Estes bancos ajudam a escolher a melhor forma de obter financiamento, seja pela emissão de obrigações (como a Sonae tem vindo a fazer ultimamente), pelo aumento de capital, ou até mesmo recorrendo-se ao tradicional empréstimo bancário. Além disto, no caso das obrigações, estes bancos acertam o preço de venda e assumem a subscrição das mesmas caso não sejam vendidos aos investidores. Para além destas actividades, os bancos de investimento dedicam-se também ao comércio de securities, fazem aceitação de letras, fazem compra e venda de moeda estrangeira (ForEx), etc.

Para além destes dois tipos de bancos, existem outros, como sejam os bancos mutualistas, as cooperativas, os bancos dedicados a hipotecas, os bancos de giro, as uniões de crédito e os bancos islâmicos. Todos estes bancos têm a sua importância, no entanto não interessam muito a este post, dado que não representam grande papel na história que vou contar.

Com a desregulação do sector bancário a nível mundial a partir de fins dos anos 70 até há bem poucos anos, a diferença entre a banca comercial e de investimento foi desaparecendo. Actualmente os bancos assumem as duas personalidades, ao mesmo tempo. Isto cria toda a sorte de riscos morais, quase impossíveis de conciliar. Por exemplo os bancos diluíam a noção do risco das hipotecas sub-prime nos EUA, empacotando essas hipotecas em instrumentos financeiros e vendendo-os aos próprios clientes. Ninguém sabia o risco que estava a incorrer. Da mesma formas os bancos lucraram bastante vendendo aos próprios clientes valores mobiliários que sabiam à priori não terem qualquer valor. Finalmente, o supremo risco moral materializa-se quando os estados garantem a sobrevivência dos bancos, através de resgates pagos pelos contribuintes, eliminando desta forma o factor risco do negócio dos bancos.

Tendo em vista regular o sector financeiro, foi criado um “Grupo de Alto Nível de Especialistas” (a página apenas está disponível em Francês, Alemão e Inglês, isto daria azo a outro post por si só…):

The Group was set up in February 2012 and has the mandate to consider in depth whether there is a need for structural reforms of the EU banking sector or not and to make any relevant proposals as appropriate, with the objective of establishing a safe, stable and efficient banking system serving the needs of citizens, the EU economy and the internal market. The Group should present its final report to the Commission by the end of summer 2012. O Grupo foi constituído em Fevereiro de 2012 e tem o mandato de considerar em profundidade a necessidade, ou não, de reformas estruturais no sector bancário da UE e de fazer as propostas relevantes como apropriado, com o objectivo de estabelecer um sistema bancário seguro, estável e eficiente, que sirva as necessidades dos cidadãos, da economia da UE e do mercado interno. O Grupo deverá apresentar o seu relatório final à comissão no fim do Verão de 2012.

Não se admire se nunca ouviu falar deste grupo. Poucas pessoas fora dos meios financeiros ouviram falar dele, apesar deste estar encarregado da definição das políticas e regulamentos que irão reger o sector bancário e por isso mesmo ter uma influência importantíssima na economia da União Europeia e por consequência na nossa qualidade de vida. O governador do banco da Finlândia, Erkki Liikanen, foi nomeado secretário deste Grupo, sendo por isso conhecido por Grupo Liikanen.

Convém relembrar que a presente crise começou exactamente como uma crise bancária que rapidamente se transformou numa crise financeira e que, no estado actual é uma crise da dívida soberana. Não teríamos crise se os bancos tivessem sido desmantelados, se os depósitos das pessoas tivessem sido acautelados e se a economia tivesse sido alimentada a seu tempo. Em vez disso a maior parte dos grandes bancos eupopeus foram salvos com o dinheiro dos cidadãos, a titulo de exemplo temos o RBS, o Hypo e o Dexia, etc.. Mas atenção, não nos ficámos por aqui. Lembro que o próprio BCE injectou 530 mil milhões de euros na banca, em fins de Fevereiro, sem grandes efeitos, a juntar ao empréstimo de 489,2 mil milhões de euros a 523 bancos em 21 de dezembro de 2011 (não resisto a perguntar, deram por alguma mudança significativa na economia europeia depois destas emissões!? – Eu também não.).

O Grupo Liikanen fez uma consulta pública aos 500 milhões de habitantes da União Europeia, durante o mês de Junho. Não sabia disto? Grande azar! O bancos europeus estavam perfeitamente informados. O Deutsche Bank conseguiu fazer nomear o seu CRO (chief risk officer) para o grupo – nem sequer houve anúncio público… No fim de contas, apenas 80 dos 500 milhões de europeus enviaram a sua opinião para o grupo de especialistas.

E os bancos querem, afinal, o quê? Os bancos, como sempre, estão apenas preocupados com a sua auto preservação. Querem pois, que tudo continue na mesma, desregulado, sem separação entre as áreas comerciais e de investimento e claro, querem continuar a ser grandes de mais para falhar. Os cidadãos europeus que paguem a factura com o abaixamento da qualidade de vida, ou por outras palavras, que se fodam!

O que convém aos cidadãos e à economia? Claramente necessitamos de bancos funcionais, que alimentem a economia real. Necessitamos de bancos que possam ir à falência, produto do normal funcionamento dos mercados, sem levarem as economias dos países com eles, sem serem grandes demais para falharem. Deveriam ser instituídos limites ao tamanho dos bancos, as componentes comerciais e de investimento deveriam ser separadas em entidades diferentes.

Parece simples, não? Veremos o que o Grupo Liikanen decide no fim do Verão…

Consultei as seguintes referências (para além dos links espalhados pelo post):

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3 thoughts on “Demasiado grandes para falharem, demasiado grandes para mudarem

  1. Muito obrigado pelo post.
    Uma pergunta : Porque os governos não vendem dívida pública diretamente aos cidadãos ? Nunca percebi. Parece que no Japão o fazem.

    • Não há motivo nenhum.

      A minha teoria é a seguinte: se o estado vendesse directamente aos cidadãos obrigações do tesouro, os bancos iriam perder um importante negócio que é lucrativo e despojado de risco (em situações normais, mesmo agora, tendo em conta os resgates que estão a ser feitos, parece um bom negócio). Como os bancos mandam efectivamente neste país, isso não acontece.

      Qual é a desculpa, oficial? O estado pode sempre alegar que se fizesse isso iria retirar demasiado dinheiro da economia o que pode provocar faltas de crédito e abrandamento da mesma. É claro que isto são tudo tretas, a quantidade de capital absorvido pode ser controlado ao cêntimo, sem grande dificuldade.

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