Desorientação completa – 600 mil milhões para Itália

O “La Stampa” anuncia hoje que o FMI está a preparar um resgate de 600 mil milhões de euros para a Itália (também saiu uma nota no Público).


Actualização: O FMI já veio desmentir a notícia do La Stampa.


Quase de imediato este resgate começa a fazer pouco sentido. Em primeiro lugar porque o FMI não tem este montante disponível, nem agora nem no futuro previsível. De facto, hoje mesmo saia um artigo no “The Telegraph” onde se indica que os fundos disponíveis para resgates, detidos pelo FMI andam pelos 290 mil milhões de euros. Mas até podemos dar isto de barato. Afinal de contas ao Telegraph costuma chamar-se “Torygraph” numa alusão à sua colagem ao partido conservador britânico. E por outro lado, o dinheiro não é atribuído todo de uma vez, pelo que haverá algum tempo para montar a engenharia financeira necessária para este dinheiro se materializar (ou seja o FED e o BCE vão ter de imprimir como loucos, que se dane a inflação.)

Infelizmente, como já aqui o disse várias vezes, os salvamentos que estão a ser montados não têm muito a ver com os países afectados, destinam-se em exclusivo a salvar os bancos que seguiram politicas de crédito temerárias. Este salvamento está a ser feito à custa dos países mais fracos, em primeiro lugar, a seguir vai ser feito à custa da própria Europa e, quem sabe, de todo o mundo.

Os bancos são corruptos e sagrados. E impossíveis de salvar. É esta a realidade que os políticos se recusam a admitir. Talvez porque quem os comprou, há muito, não os autorize a tal. Ou então começaram a acreditar nas suas próprias fantasias.

Saiu uma lista de bancos aflitos no Business insider, que é bastante esclarecedora em relação a toda esta confusão. Podemos resumir esta lista da seguinte forma:

 

Banco Exposição aos PIIGS Capitalização Bolsista Capital Exposição em % do capital
Royal Bank of Scotland Group (Reino Unido) 110.55 46.03 63.11 175%
Landesbank Berlin (Alemanha) 9.90 4.23 5.52 179%
Barclays (Reino Unido) 93.25 33.15 49.46 189%
Landesbank Baden-Württemberg (Alemanha) 24.20 8.51 10.53 230%
DZ Bank (Alemanha) 18.64 7.81 239%
KBC Ban (Bélgica) 29.97 68.33 12.15 247%
Credit Agricole (França) 145.01 22.63 49.45 293%
Deutsche Bank (Alemanha) 106.16 37.55 32.48 327%
BNP Paribas (França) 212.13 60.33 59.22 358%
Commerzbank (Alemanha) 50.87 13.93 11.02 462%
Banco Santander (Espanha) 428.25 69.52 44.93 953%
Unicredit (Itália) 408.88 25.98 38.20 1070%
Dexia (Bélgica) 100.38 3.95 7.81 1286%
Bank of Ireland (Irlanda) 77.34 1.05 5.59 1384%
BBVA (Espanha) 417.46 39.87 26.72 1562%
EFG Eurobank Ergasias (Grécia) 57.39 1.56 3.58 1604%
Intesa Sanpaolo Group (Itália) 458.33 38.55 27.99 1638%
Banco Popular Español (Espanha) 138.13 5.22 7.17 1928%
Banca MPS (Itália) 219.70 6.01 4.71 4663%
Allied Irish Banks (Irlanda) 97.41 1.51 0.29 33339%
TOTAL 3 203.96 467.72 685%
Valores em milhares de milhões de euros

Estes resultados foram extraídos dos testes de stress da EBA, de Julho de 2011.

Como se pode constatar, os 3 biliões de exposição aos PIIGS são impossíveis de resgatar. E, não esquecer, isto não é mais do que a ponta do iceberg, por exemplo o Dexia, que tinha passado nos testes de stress, tinha cerca de 500 mil milhões de euros de activos, com a ameaça de não pagamento de menos de 1% desse valor, foi forçado a pedir ajuda aos governos da Bélgica, França e Luxemburgo (o que já forçou o abaixamento do rating da Bélgica e faz tremer a França).

As dívidas dos bancos ultrapassam em muito a exposição aos PIIGS e não são possíveis de resgatar devido ao seu valor astronómico. Os bancos jogaram e perderam. É tempo de tomar a mais liberal das decisões, deixar os mercados funcionar, os bancos maus devem morrer o quanto antes. Se isso não acontecer, seremos todos arrastados nesta enxurrada.

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4 thoughts on “Desorientação completa – 600 mil milhões para Itália

  1. Uma coisa não percebo: para onde vai o dinheiro?

    Mas concordo, as consequências que a má gestão merece terão que reinar. Até porque na argolada das .com saíram airosos e no que deu? Logo depois de terem limpo o suor frio do susto, meteram-se noutra ainda pior, esta.

    • É tudo a mesma argolada. Como é magistralmente explicado ao Mr. Beale no The Network, vivemos num sistema inexoravelmente interligado. Há até quem diga que a prodigalidade do Greenspan ao resolver a bolha dot-com com dinheiro barato induziu a bolha do crédito à habitação que, por sua vez, nos trás directamente à alhada em que estamos metidos.

      O dinheiro vai para o 1%, está claro, uma parte dele pelo menos. Outra parte é destruída e o que resta cria inflação, ou seja empobrece-nos a todos.

      • É possível aprofundar como tanta massa se destruiu? A inflação está controlada em quase todo o mundo e até nas grandes fortunas me parece que houve baixas.

        • Não sei se estou a compreender a pergunta.

          Há muito dinheiro que é destruído, quando um banco central empresta a outro banco para que este possa cumprir as suas obrigações, durante 24 horas ou outro prazo igualmente curto, o dinheiro é criado para o efeito e, quando é pago de volta, destruído. O juro é pequeno e volta aos cofres do banco central pelo que não tem efeitos na economia. Pelo menos é essa a ideia.

          O problema é o dinheiro que entra na economia sem ter ter contrapartida real (isto ainda não começou a acontecer em grande escala mas já teve efeitos no preço das commodities). Se os bancos centrais começarem a imprimir dinheiro e este começar a ser posto em circulação na economia real (por exemplo através da compra de dívida soberana), então temos um aumento da inflação, por definição. O aumento dos preços vem logo a seguir.

          Apesar de haver quem esteja a ganhar dinheiro nesta crise, há igualmente muita gente a perder dinheiro.

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