Momentos de mudança

Em 1971 saiu no San Francisco Chronicle a frase enigmática “A Comissão dos Caminhos de Ferro do Texas anunciou uma admissibilidade de 100% para o próximo mês“. Para decifrar esta frase, temos, em primeiro lugar, de saber que a Comissão dos Caminhos de Ferro do Texas tinha por missão definir a produção máxima admissível das empresas extractoras de petróleo. Adicionalmente, uma admissibilidade de 100% queria dizer que os produtores estavam autorizados a produzir tanto quanto conseguissem.

A frase também contém, ainda, um segundo significado, esta frase pode ser entendida como o marco da chegada do pico da produção de petróleo aos 48 estados continentais dos EUA. Antes ou depois dessa data nunca se produziu tanto petróleo nos Estados Unidos (por coincidência mesmo que juntemos o petróleo do Alasca e as descobertas em águas profundas esse pico nunca foi ultrapassado). Este tipo de comportamento é observável na extracção de produtos não renováveis – especificamente com o petróleo este comportamento já foi observado em várias províncias.

Seria de esperar mais do que um enigmático apontamento para marcar o pico da produção de petróleo nos EUA. No entanto, talvez a história se esteja a repetir.

Ontem às dez da noite o The Guardian publicou quatro mensagens diplomáticas norte americanas onde se afirma que o Reino da Arábia Saudita exagerou a quantidade das suas reservas de petróleo talvez em 40%. Além disso ainda se acrescenta que o país não tem capacidade de aumentar o seu nível de produção para colmatar eventuais necessidades ou para exercer controlo de preços.

Para todos os efeitos isto quer dizer que a Arábia Saudita atingiu o seu pico de produção de petróleo e com a Arábia Saudita com toda a probabilidade, o mundo.

Ao contrário de outras províncias, a chegada do pico da produção à Arábia Saudita, a confirmar-se, tem consequências devastadoras. A Arábia Saudita é considerado o moderador de preços. Esta moderação consegue-se simplesmente com o aumento da produção, ou até mesmo a simples ameaça de o fazer – mantendo-se desta forma os preços relativamente estáveis e propícios ao crescimento económico global (isto em teoria, na prática esse controlo sempre se fez de acordo com os interesses dos EUA).

Matthew Simmons no seu Twilight in the Desert: The Coming Saudi Oil Shock and the World Economy (2005) argumenta de forma muito convincente o que agora é revelado pelo The Guardian.

Se perdermos este elemento de moderação, os preços do petróleo vão permanecer descontrolados, expostos ao mínimo distúrbio, quer nos mercados quer na produção. As consequências serão vastas, uma delas, imediata, será nunca mais voltarmos a ter petróleo barato de uma forma estável.

Se julgam que podemos passar sem o petróleo barato façam o seguinte exercício: enumerem os objectos que têm à vossa volta nos quais é utilizado petróleo – vão-se surpreender.

Comparado com isto, tudo o que os nossos políticos possam dizer ou fazer é, para todos os efeitos, irrelevante.

Tempos interessantes…

As quatro mensagens diplomáticas são:

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9 thoughts on “Momentos de mudança

  1. Pingback: Tweets that mention Momentos de mudança | Aventar -- Topsy.com

  2. Excelente ‘post’. O caso demonstra que o ser humano é essencialmente um depredador. Tudo em nome do dinheiro e do lucro dos que dominam o planeta. A velha irracionalidade do mercado e da mão invisível.

  3. Sim, o pico já deve ter sido ultrapassado. Os líderes mundiais já devem saber isso. Este tipo de notícias, no entanto, só vai servir para estimular a especulação. Recomenda-se prudência na gestão destes dados…

    E isto só demonstra, mais uma vez, que não há outra hipótese senão investir na produção local de energia, deixando de lado o paradigma da importação energética.

      • E porque é que não haveriamos de sobreviver? é só uma questão de readaptação. De qualquer modo as recentes descobertas de novas jazidas no Brasil e em Angola apontam em outro sentido.

        • Em primeiro lugar temos de ter em conta que a sobrevivência não é um dado adquirido. Nunca o foi. Só nos últimos 100 a 200 anos é que essa sensação de inevitabilidade se instalou nas sociedades ocidentais. A nossa viabilidade enquanto sociedade sempre esteve num equilíbrio muito precário.

          Testemunho disso são as inúmeras pessoas que morrem de fome todos os dias. Notar que as civilizações também morrem, basta olhar para o exemplo do povo da Ilha de Páscoa.

          Em todo o caso e isto não passa de uma mera opinião, eu também acredito que vamos de facto sobreviver. Com a frase eu queria realçar as dificuldades que vivemos e as que se avizinham.

          Quanto às descobertas do Brasil e de Angola estas são excelentes para esses países mas pouco significado têm no contexto mundial. Isto por vários motivos, sem querer ser exaustivo:

          Desde a década de 60 que a quantidade de novas reservas encontradas por ano são substancialmente menores do que o consumo desse ano. Ou seja as reserva não são repostas – este problema é conhecido com sólidas bases cientificas desde os anos 50 pelo menos;
          Consumimos cerca de 85 milhões de barris de petróleo por dia. Por exemplo se assumirmos que as reservas totais do Brasil andam pelos 28 mil milhões de barris (para ser conservativo estou a usar o dobro do referido aqui), então estamos a falar de 329 dias de consumo mundial!
          O novo petróleo que se vai encontrando é caro, quer em termos monetários quer em termos da quantidade de energia necessária para extrair o crude;
          Este novo crude além de caro é muito difícil de extrair, assim a cadência de produção vai ser sempre lenta (investimentos adicionais fazem facilmente com que a extracção deste petróleo não seja económica, isto força-nos a fluxos lentos).

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