O Príncipe, O Grande Jogo e a Wikileaks

É conhecido como O Grande Jogo a disputa pelo domínio da Ásia Central, que opôs os impérios russo e britânico durante o século XIX e inicio do século XX. Durante esse período toda a Ásia Central foi considerada um tabuleiro de xadrez onde os dois impérios fizeram as suas jogadas. Muita da acção centrou-se no Afeganistão que constituía a base perfeita para uma invasão da Índia (sob domínio britânico) ou do Turquemenistão (sob domínio russo). Em 1898 o vice-rei da Índia, Lord George Nathaniel Curzon, declarava:

Turquemenistão, Afeganistão, Transcaspia, Pérsia – para muitos estes nomes transmitem apenas uma sensação de extremo afastamento. Para mim, confesso, eles são peças de um tabuleiro de xadrez sobre o qual está sendo jogado um jogo pelo domínio do mundo.

Isto para altura estava muito bem. Afinal foi a época em que se expandiram os impérios coloniais, falava-se sem qualquer vergonha do fardo do homem branco e outros inventavam destinos manifestos que permitiam cometer genocídios indiscriminados. Tinham algo de romântico e tremendo declarações deste tipo.

Hoje em dia já não é bem assim, não é politicamente correcto os diplomatas admitirem que está em curso um Novo Grande Jogo. Não é vista com bons olhos a interferência de potências estrangeiras com o fito de se apoderarem de recursos naturais de uma dada região, ou obterem vantagens estratégicas entre si, ignorando as nações e povos locais.

É por isso refrescante ler o relatório da embaixada americana em Bishkek (Quirguistão) sobre uma reunião destinada a preparar o Príncipe André (quarto na linha de sucessão ao trono britânico) para os seus contactos oficiais com o primeiro ministro local e demais altos representantes do país.

A candura é desarmante quando a certa altura o príncipe, com fervor patriótico, anuncia a sua intenção de, desta vez, ganhar o Grande Jogo:

9. (C) Dirigindo-se à embaixadora, o Príncipe André voltou-se para a política regional. Ele declarou sem rodeios que “o Reino Unido, a Europa Ocidental (e por extensão também vocês americanos)” estão agora a jogar o Grande Jogo. Mais animado que nunca, declarou arrogante: “E desta vez fazemos contas de ganhar!”

A Embaixadora dos EUA, honra lhe seja feita, manteve o seu terreno permanecendo sempre correcta.

Ficamos a conhecer o respeito dedicado aos jornalistas, por alguém que está em representação de um país ocidental:

Depois ele continuou: “estes (expletivo) jornalistas, especialmente do National Guardian, que andam a enfiar o nariz em todo o lado” e (presumivelmente) tornam a vida mais difícil aos homens de negócios britânicos.

E também, que os governos eleitos dos EUA e GB são um bando de estúpidos:

Os nossos estúpidos (sic) governos Britânicos e Americanos planeiam na melhor das hipóteses para a dez anos enquanto as pessoas nesta parte do mundo planeiam para séculos.

A leitura completa deste relatório mostra sem a maquilhagem do “politicamente correcto” o que pensam verdadeiramente os jogadores deste novo grande jogo.

Depois de lermos este relatório várias questões nos assaltam:

  • Pergunto-me como se vão arranjar os britânicos para despedirem este representante;
  • Nem uma vez se fala de combate ao terrorismo;
  • Nem uma vez se fala sobre armas de destruição em massa;
  • Nem uma se fala de combate ao tráfico de droga;
  • Por onde andam os Alemães e os Franceses? – Inclusive alude-se a esta ausência no relatório.

Vivemos sem dúvida tempos interessantes!

Anúncios

2 thoughts on “O Príncipe, O Grande Jogo e a Wikileaks

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s